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Evangelismo

Amor a Deus ou amor às almas?

Por Cleber Olympio

INTRODUÇÃO

Uma passagem significativa do capítulo 26 do Evangelho segundo Mateus é o sofrimento de Jesus no Getsêmani, logo após a que seria a Última Ceia e antes da prisão de Cristo, que antecedeu seu julgamento e execução. Nela, os momentos antecedentes do sacrifício vicário de Cristo estavam para se consumar. Sua humanidade plena contrastava com sua divindade plena, pois o sofrimento de Cristo é algo visível, tangível, significativo.

Nesse contexto, fala alto o desprezo da humanidade dos discípulos por causa de Cristo. Falam que não negarão a Ele, mas O negam; os mais íntimos são convidados a subir no monte e orar com Ele, mas não oram. Jesus, aos olhos humanos, está completamente só e abandonado. E, no entanto, mesmo assim, cumpre com Sua missão em favor dos que o Pai Lhe deu para apascentar, dos mesmos que O negaram e não oraram com Ele, e dos demais, espalhados que já estavam pela Judeia.

Os antecedentes, o comportamento e a motivação demonstrados por Cristo devem servir de inspiração para o crente ao estar a serviço do Reino de Deus. O eixo orientador de seu comportamento deve estar no rumo certo, pois, caso contrário, toda a motivação e propósito se esvanecerão. Demonstraremos em breve meditação que, no tocante à obra do Reino, o amor do cristão deve ser direcionado a Deus, e não às almas, e assim o faremos, discernindo:

1) O real papel das demonstrações de amor e submissão a Deus, vindos de Cristo.

2) Como Jesus encarava as demonstrações de constância ou inconstância de Seus discípulos.

3) O que significa, de fato, trabalhar para Deus, e canalizar nosso amor a Ele, não às almas.

Passamos, então, à análise de cada um dos pontos colocados, tendo como base o texto de Mateus 26:31-45.

1) O real papel das demonstrações de amor e submissão a Deus, vindos de Cristo.

São numerosas as referências do amor de Deus em relação a cada uma das Pessoas da Trindade. O Filho, em tudo, procura demonstrar a Sua relação com o Pai, de quem recebeu o poder em todas as coisas por amor (Jo 3:35), inclusive para julgar a tudo (Jo 5:22), e tanto o Filho quanto o Pai são dignos de honra, ao mesmo tempo (Jo 5:23). O Pai é, ainda, glorificado no Filho (Jo 14:13), e por este foi glorificado no momento adequado, isto é, na sua morte e ressurreição (Jo 17:1).

O Filho procura honrar ao Pai com Seu trabalho, sendo Ele a videira que é cultivada pelo lavrador (Jo 15:1). Inclusive nesse momento há algo que O diferencia dos demais servos de Deus, ao longo da História: o amor. Em tudo Jesus demonstra que serve ao Pai por amor. A oração de João 17 é uma declaração sublime desse amor dirigido ao Pai, e que coroa toda a missão de Jesus na terra: resgatar os que Lhe foram dados pelo Pai (v. 6), ensinar-lhes (v. 8), proteger-lhes (v. 12) e que, como consequência, traria glória a Cristo, conforme Sua missão (v. 10).

Nota-se, então, que Jesus dirigia Seu amor ao Pai, e Dele recebia força e poder para operar nessa obra em favor do Reino (Jo 8:28). Assim, vemos que o nosso maior exemplo, a quem devemos seguir, dá o caminho para que orientemos nossas mentes e afetos, se é que, de fato, servimos ao Reino de Deus: tudo deve ser dirigido a Deus, somente a Deus, pois Ele é digno de receber glória e honra nesse relacionamento. Se em tudo Deus supre o crente para que ele trabalhe em favor do Reino, e Seu nome seja glorificado na vida daquele, então é apropriado que o crente se oriente pelo exemplo de Cristo e dê somente a Deus o que Lhe é devido.

2) Como Jesus encarava as demonstrações de constância ou inconstância de Seus discípulos.

a) Baseando-se em Sua onisciência divina. Sendo onisciente, Jesus sabia da traição a que seria submetido (Mt 26:21). Além disso, sabia da fraqueza dos corações dos Seus discípulos, mais além do que eles mesmos (vv. 25, 33, 34). Ele também tinha, em mente, que o amor aos discípulos, mesmo sendo exercitado até o fim, não produziria glória ao Senhor, nem seria útil para o Reino, pois não seria dirigido ao Pai. O Senhor merece o principal dos afetos; em seguida vem o amor ao próximo, de um modo bem mais limitado do que aquele amor exercido “de todo o coração, e de todo o entendimento, e de toda a alma, e de todas as forças” (Mc 12:33).

b) Baseando-se no que Ele já poderia esperar, ou não, do homem. Jesus, portanto, não poderia pautar Seu sacrifício vicário, nem mesmo dar Seu corpo e sangue por conta daqueles que iriam abandoná-Lo, naquela mesma noite (Mt 26:31). O mesmo Jesus não desejava para Si todo aquele sofrimento, pois, afinal, era homem, sujeito às mesmas dores – e amava a Si mesmo a ponto de não desejar essas dores a seu corpo –, mas submeteu-se à vontade do Pai (v. 39), a fim de agradá-Lo nessa relação amorosa.

c) O fundamento de Jesus, ao trabalhar para o Pai. Nisso percebemos que a reação de Cristo não ocorreu em função do que Ele já sabia quanto à atitude daqueles por quem Ele se entregaria, instantes mais tarde, mas sim como fruto de Sua integral submissão ao Pai, a Quem servia por amor.

O amor de Jesus estava em Deus, não nas almas, pois este é o fundamento do Reino. Ele não poderia fixar sua casa na areia movediça do coração inconstante do homem, que, num primeiro momento, se assenta com Jesus na mesa e, logo em seguida, foge Dele, como se não O conhecesse, negando o Autor da Vida para fugir da morte.

3) O que significa, de fato, trabalhar para Deus, e canalizar nosso amor a Ele, não às almas.

a) Considerando a natureza humana conforme a Bíblia. Não somos, por certo, dotados da onisciência, para conhecermos o coração humano. A Bíblia, no entanto, demonstra – e isso foi ensinado a Cristo – que o coração do homem é contaminado pelo pecado (Mt 15:18), de onde procede aquilo que ele fala de mau, além de ser desesperadamente corrupto e enganoso (Jr 17:9).

b) Considerando a natureza inconstante das reações humanas. Se orientado pelos afetos do coração humano, qualquer pessoa se decepcionará muito no serviço do Reino de Deus. A agitação do coração do homem não produzirá qualquer efeito benéfico, antes o conduzirá a buscar agradar a quem julga servir, ainda que “santifique” seu trabalho e diga estar realizando tais coisas em favor do Reino.

As reações humanas são as mais inesperadas e, por vezes, perversas. Quando a situação, em favor do Reino, começa a apertar, as vozes contrárias dos corações humanos tenderão a abandonar a obra. O servo de Deus tentará obter apoio, mas ninguém lhe estenderá a mão. Consolo e intercessão nos momentos de perigo? Será inútil pedir, pois, a exemplo do que aconteceu com Cristo, os mais próximos e fiéis estarão dormindo quando a situação apertar, e mesmo as mais firmes exortações para uma proximidade acabaram inúteis, por conta do peso que pairava sobre os discípulos, físico (Mt 26:43) e emocional.

Pessoas são suscetíveis de decepcionar e de se decepcionarem. Pessoas são movidas por interesses e por motivações frequentemente limitadas por uma visão igualmente limitada de mundo e de circunstâncias. O povo de Israel se amedrontou com a visão dos espias, apesar de a promessa estar concretizada diante de seus olhos; os discípulos não tinham maturidade suficiente para distinguir a necessidade de irem com Seu Mestre até o fim. Falta contato, sensibilidade, pureza de motivos e de pensamentos. Com tantos fatores contrários, como pode o homem se dar à busca de realizar obra por amor às almas, como fundamento para sua missão na terra?

c) Considerando a relação entre amor a Deus e o altruísmo na nossa sociedade. Nesse sentido, o altruísmo não deve ser a força-motriz do trabalho do crente. Nada ele deve fazer por simples amor às almas: delas ele pode não obter retorno algum, e nem dizemos isso por conta de uma necessidade de haver abnegação ao se trabalhar para Deus. Delas pode não haver retorno nem de estímulo para continuar adiante e, pior, desprezo, escárnio ou mesmo franca e aberta oposição.

Todo trabalho, por mais “altruísta” que pareça, se não estiver focado naquilo que realmente importa – isto é, a glória de Deus – não tem importância alguma, pois será como as demais obras da carne. Certamente há os que combaterão essa ideia, que, por si só, parece rejeitar os trabalhos de ajuda humanitária e as instituições que dão assistência a pobres, refugiados e demais pessoas necessitadas. A pobreza sempre estará presente na terra (Dt 15:11), e o crente deverá atender ao pobre e ao necessitado (Dt 15:7; 24:14), e certamente este se compadecerá daquilo de que este precisa; sua obra, no entanto, é que realmente contará para Deus, e ainda assim se for feita segundo a motivação correta, isto é, a glória de Deus. Do contrário, se feita conforme os interesses desse mundo, como desejo por notoriedade, pura satisfação pessoal, mero protesto social, forma de obter incentivos fiscais ou apenas sublimação de sentimentos ruins adquiridos ao longo da vida, serão obra morta, da mesma forma. Deus conhece intimamente as necessidades de cada um, e sem dúvida fará aquilo que Lhe represente glória, numa relação amorosa com Sua criação.

A motivação do crente para trabalhar deve ser apenas o amor a Deus. Sem essa motivação, todos os esforços tenderão a acompanhar as obras da carne, pois o foco estará na carne, não no espírito. Ademais, a força para o trabalho vem de Deus, não do homem. Não vem de uma “íntima compaixão do coração”, mas do Alto. Dizer que a força vem das motivações humanas em favor do próximo é como dizer que a árvore, sem raiz, produzirá fruto.

CONCLUSÃO

Jesus não fazia Sua obra por amor às almas: elas recebiam o reflexo do Seu trabalho dirigido a Deus e com fundamento no amor a Deus. Por mais que haja conflitos com a versão humanista do amor, que torna o homem como centro e medida de todas as coisas, constata-se patentemente, por meio da Bíblia, que o parâmetro de trabalho na obra para o Reino de Deus é o amor a Deus, não o amor às almas. O retorno de pessoas é imprevisível, assim como qualquer demonstração de apreço ou de auxílio.

O amor deve ser o canal que conecta o homem a Deus, de quem ele receberá forças para ir adiante, onde ninguém jamais pensou em ir e onde ninguém poderia, ou gostaria, de estar em sua companhia. Estabelecendo o correto fundamento, o crente saberá como agir quando se sentir sozinho, angustiado ou desamparado nos momentos difíceis, em que todos fogem, traem ou lhe deixam no completo abandono.




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