Poucos textos da Bíblia são tão sinceros quanto Jeremias 20. O profeta acaba de ser espancado e preso no tronco por Fassur, o sacerdote responsável pelo Templo (Jr 20,1-2). É nesse momento de humilhação que ele derrama o coração diante de Deus.
“Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir.”
Jeremias 20,7
Uma oração sem máscaras
Jeremias não esconde a dor: tornou-se motivo de zombaria, e a Palavra que anuncia só lhe traz desprezo. A palavra hebraica traduzida por “seduzir” fala de alguém que foi atraído e envolvido. O profeta sente que Deus o conquistou e depois o deixou sozinho diante da hostilidade.
Esse trecho faz parte das chamadas “confissões de Jeremias”. Elas mostram que a Bíblia não pede uma fé de aparências: Deus acolhe também a queixa, a dúvida e o cansaço de quem o serve.
O fogo que não se apaga
O próprio Jeremias decide não falar mais em nome de Deus, mas não consegue: a Palavra se torna “um fogo ardente, encerrado em meus ossos” (Jr 20,9). A vocação não depende do entusiasmo do momento. Ela permanece porque é Deus quem chama e sustenta.
Para a nossa vida
- Seguir a Deus não elimina as crises, mas dá sentido a elas.
- É legítimo apresentar a Deus a própria dor com sinceridade.
- A fidelidade se renova quando voltamos à Palavra que nos chamou.
A Igreja proclama esse texto na liturgia, junto com o Evangelho em que Jesus anuncia a cruz e chama os discípulos a segui-lo (Mt 16,21-27). O chamado de Jeremias ilumina o nosso: amar a Deus inclui permanecer quando é difícil.
Referências bíblicas
- Jeremias 20,1-18
- Jeremias 1,4-10
- Mateus 16,21-27
Imagem da capa: Rembrandt, Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém (1630), Rijksmuseum. Domínio público, via Wikimedia Commons.
